Wednesday, July 13, 2005

Vão

Enquanto ela dorme, os móveis estalam. Descansam de suas mãos, de sua carne, de seu calor. Os móveis voltam finalmente a esfriar enquanto ela geme num pesadelo eterno.

Sonha com seu casamento. Está chorando copiosamente ao ver o vestido de noiva queimado pelo cigarro. Seus amigos a consolam: “Mas é só um furinho, e você tá tão deslumbrante”. Ela supera a decepção. Enxuga o rosto e começa a pôr o véu, camada por camada, os véus que parecem não ter fim, um véu que encobre outro véu que encobre outro véu que encobre outro véu, até o núcleo se perder, como na estrutura de uma cebola.

E depois de horas, entra na igreja, com passos lentos e ritmados. Não enxerga nada, porque tem milhares de véus diante de seu rosto, mas como ensaiou a mesma entrada dez vez por dia, durante cinco anos, consegue ir ao encontro do noivo quase que intuitivamente. Cega, mas cada vez mais perto, cada vez mais certa. Como alguém que reconhece a própria mão no escuro, sem nenhuma dificuldade, ela acerta o caminho. E novamente chora, comovida, ansiosa, feliz. Mas suas lágrimas não podem ser vistas por ninguém. Assim como ninguém pode escutar seus gemidos, abafados pelo tecido.

E então, conforme ensaiado, depois de quarenta e dois passos ela estica o braço, esperando o toque da mão do noivo, que a conduziria ao altar, a ajudaria a retirar véu por véu e exibiria seu sorriso perfeito, seu sorriso que encerraria a ilusão num cenário alvo e iluminado. Mas não existe mão. Não existe mais barulho. Só existe o chão, duro, o chão que ela está prestes a perder. Só existe a desilusão, o abandono no escuro. O abandono que sente quem começa a tatear e percebe que tudo que era concreto desapareceu.

Seu choro não dura muito. Em pouco tempo, é sufocada pelos próprios véus que ela usou para cobrir o rosto, os véus que a levariam a descobrir a felicidade com as luzes apagadas. Perde o ar. Perde a esperança. É quando percebe que está num pesadelo sem saída. Nessa noite, quer acordar como nunca.

E desperta.

Senta na cadeira e liga o computador, o coração acelerado, as mãos quentes e trêmulas.

Quer fugir da escuridão, se livrar dos véus e se exibir ao mundo.

Acender as luzes.

Enquanto os móveis voltam a esquentar.

Eu sempre critiquei essa gente que entra em comunidade do tipo "Sou invejado" e usa nos carros os cafoníssimos adesivos de "Sua inveja faz o meu sucesso". Normalmente essa galera que espalha aos quatro cantos que é invejada não sabe de nada. Nem é invejada, só recebe a indiferença mas quer se sentir admirado.

Pois bem. Não me lembro de ter sido alvo de inveja durante toda minha vida.

Me acho interessante, inteligente e carismática. E só meus amigos já são motivo suficiente pra inflar o ego. São pessoas fodas, e ser admirada por gente foda é bom pra auto-estima. Mas nunca me achei digna de provocar inveja em alguém. Do fundo do coração.

Mas agora sei que fui alvo de inveja. Eu queria entender por quê. Não tenho um namorado apaixonado, um emprego ótimo, não sou alta e esguia, não tenho narizinho de boneca, não sou ruiva natural, não sei beber socialmente, vivo falando merda e criando caso, não sou equilibrada e vivo, VIVO espalhando ao vento meus defeitos e recalques e fraquezas. Tô longe de passar uma imagem de perfeição. Tô longe de fingir qualquer coisa.

Então, por que essa pessoa anda inventando coisa e fazendo intriga? Uma pessoa que sempre me elogiou e dizia me admirar. Com quem nunca tive intimidade, com quem nunca tive atrito nenhum. Que perigo eu represento?

Eu compreendo o sentimento de inveja e recalque. Todos, todos nós sentimos de vez em quando. Agora, evidentemente, o que separa uma pessoa feliz de uma infeliz é o que ela faz com a inveja que sente, o recalque que tem. Querer fazer mal a alguém de graça, inventar história, fazer intriga, é desvio psicológico mesmo. E claro, sinal de infelicidade.

Enfim, não vou fazer nada. Vou ficar na minha. Até porque soube que não fui a primeira nem vou ser a última a ser alvo da falta de caráter dela. E também vou desistir de tentar entender. Não vou gastar energia com esse tipo de pessoa, porque sem inveja meu mundo já tá caótico o suficiente.

Tuesday, July 12, 2005

Encontrei A crônica.
Tinha que ser do 02 neurônio.
Eu amo essa gente.


Manifesto pelo direito igualitário ao surto
por Nina Lemos

Eu surto, sabia? Depois de um dia muito estressante de trabalho ás vezes eu fico meio louca. Sei que isso também acontece com você. Só que você bebe e fuma um baseado, que eu sei. O meu surto é um pouco diferente. Fico mal-humorada. Falo demais no telefone. Sou chata. Eu surto. Depois passa.

Se alguém combina uma coisa comigo e muda os planos, eu fico decepcionada. Se eu estiver surtada, fico mais decepcionada ainda. Aí eu não faço o que eu deveria fazer. Sim, na regra do mundo, uma mulher deve levar um bolo e aceitar isso placidamente. Olha, minha amiga, se você não fizer isso, o cara vai sair correndo de você, sabia? Então, é bom que você aprenda a fingir. Um bolo? Tudo bem, acontece, normal. Não perturbe o homem que pisou na bola. Senão ele não vai querer te ver de novo. É assim que a banda toca.

Não comigo. Mas assim os homens vão se espantar, diz meu amigo. Eu sei que vão. Mas espera aí. Se alguém me dá um bolo eu também me espanto com o cara. Eu também vou ter dúvidas do tipo: "Será que devo investir nele?".

Mas não adianta. Mulher não pode surtar. A gente tem que aturar tudo, porque sabe como é, falta homem no mercado e as moças estão todas com suas caras perfeitas, sorrindo ao levar um bolo, desculpando as babaquices alheias. Por que eles vão querer ficar com alguém que dá trabalho?

Se fossem menos covardes, iam querer. As melhores pessoas que eu conheço surtam. Todas elas. Meus amigos são as pessoas mais temperamentais que eu conheço. A gente até tenta melhorar, mas a gente é assim. E você também deve ser, sr Pretê. Mas você é homem, né? E segundo a hierarquia mundial, pode surtar à vontade. Pode ir embora da festa com cara de agoniado dizendo que está fora de controle. Eu vou perdoar. E todas as moças de sorrisos plácidos também.

Eu também vou continuar surtando. Surto porque a vida é dura, porque um dia eu vou morrer, porque eu trabalho muito, porque eu sou inteligente. Ou simplesmente porque eu surto. Só que eu não vou ter perdão. No mercado neo-liberal onde homens e mulheres convivem hoje é assim. Essa é a sua última chance, minha filha, aproveite. Uma pisada na boa e uma promessa de amor já era!

E você vai continuar fugindo. Tudo bem.

Surtos com direitos iguais. É essa a bandeira que eu estou levantando aqui.

Mas, meu deus, esse texto pode apavorar os homens! E agora? Será que depois de ler isso eles vão ficar com mais medo ainda de mim?

Problema meu. Eu que pague por ser uma socialista do surto.

E aí, vai encarar?

Thursday, July 07, 2005

No frio, no tédio, no nada...

Fetiches surreais - Capítulo I (óbvio q não haverá o II, ele nunca vem)









Por ordem de aparição: cinto preto (os simples, os discretos, mas de couro preto - de preferência embaixo da blusa); homem fazendo a barba (provavelmente entra aí meu complexo freudiano de ter visto meu pai fazendo a barba dezenas de vezes - e tem coisa mais masculina que isso?); homem dirigindo (especificamente TROCANDO A MARCHA) e, por fim, homem com uma perna cruzada em cima da outra, mas EXATAMENTE a posição da foto.


Tá. Eu sei que sou doente.


Tuesday, July 05, 2005

Inofensiva como uma lagartixa.
Capaz de cair derrubada no primeiro sopro.
Estômago seco, boca seca, pele seca, pressão baixa, pele queimada pelo meu próprio cigarro, mancha roxa, maquiagem definitiva.
E bile. Muita bile. Devo, inclusive, estar transpirando bile.

Ah, minhas ressacas nunca mudam mesmo. São um grande clichê.


***

and we're all dead yeah we're all dead
inside the future of a shattered past
i lie just to be real, and i'd die just to feel
why do the same old things keep on happening?
because beyond my hopes there are no feelings
(Smashing Pumpkins)

Proximidade de aniversário é sempre um período patético, porque você tenta enxergar o que mudou na sua vida; onde você melhorou, onde você piorou, quem se afastou e quem se aproximou. E eu lembro de uma conversa que tive exatamente no dia 05 de julho de 2004, uma conversa que parecia tão certa pro meu coração, tão definitiva, tão séria. E, desde então, nunca mais tive de novo aquele estado de espírito tomado pela esperança, o platonismo aguçado, o sangue correndo mais e mais rápido dependendo da música escolhida, do verso escolhido. Não, nunca mais. Letras e melodias não fazem mais tanto sentido. Míope, eu ando míope. Me enfiando no primeiro subterfúgio que aparece. Ouvindo os hormônios sem que eles precisem gritar - eles só sussurram e eu atendo, submissa. Um ano, 365 dias em que fiz coisas que a maior parte das pessoas passam a vida inteira só imaginando. Coisas ótimas que eu aconselho que todo mundo faça antes de morrer. Mas, de qualquer forma, foi um ano sem paixão. Um ano em que não esperei nada, em que andei pegando todo tipo de atalho possível, sem olhar seta, sem olhar placa, sem pedir informação.

Mas sigo andando.