Vão
Enquanto ela dorme, os móveis estalam. Descansam de suas mãos, de sua carne, de seu calor. Os móveis voltam finalmente a esfriar enquanto ela geme num pesadelo eterno.
Sonha com seu casamento. Está chorando copiosamente ao ver o vestido de noiva queimado pelo cigarro. Seus amigos a consolam: “Mas é só um furinho, e você tá tão deslumbrante”. Ela supera a decepção. Enxuga o rosto e começa a pôr o véu, camada por camada, os véus que parecem não ter fim, um véu que encobre outro véu que encobre outro véu que encobre outro véu, até o núcleo se perder, como na estrutura de uma cebola.
E depois de horas, entra na igreja, com passos lentos e ritmados. Não enxerga nada, porque tem milhares de véus diante de seu rosto, mas como ensaiou a mesma entrada dez vez por dia, durante cinco anos, consegue ir ao encontro do noivo quase que intuitivamente. Cega, mas cada vez mais perto, cada vez mais certa. Como alguém que reconhece a própria mão no escuro, sem nenhuma dificuldade, ela acerta o caminho. E novamente chora, comovida, ansiosa, feliz. Mas suas lágrimas não podem ser vistas por ninguém. Assim como ninguém pode escutar seus gemidos, abafados pelo tecido.
E então, conforme ensaiado, depois de quarenta e dois passos ela estica o braço, esperando o toque da mão do noivo, que a conduziria ao altar, a ajudaria a retirar véu por véu e exibiria seu sorriso perfeito, seu sorriso que encerraria a ilusão num cenário alvo e iluminado. Mas não existe mão. Não existe mais barulho. Só existe o chão, duro, o chão que ela está prestes a perder. Só existe a desilusão, o abandono no escuro. O abandono que sente quem começa a tatear e percebe que tudo que era concreto desapareceu.
Seu choro não dura muito. Em pouco tempo, é sufocada pelos próprios véus que ela usou para cobrir o rosto, os véus que a levariam a descobrir a felicidade com as luzes apagadas. Perde o ar. Perde a esperança. É quando percebe que está num pesadelo sem saída. Nessa noite, quer acordar como nunca.
E desperta.
Senta na cadeira e liga o computador, o coração acelerado, as mãos quentes e trêmulas.
Quer fugir da escuridão, se livrar dos véus e se exibir ao mundo.
Acender as luzes.
Enquanto os móveis voltam a esquentar.



