A expressão facial dele era estática: queixos discretos, músculos quietos e lábios contidos. A roupa, claustrofóbica: mangas compridas e calças jeans espessas, apesar do calor terrível que fazia naquela tarde de verão carioca. Os traços eram delicados, quase castos: nariz inofensivo, orelhas pequenas, cabelos finos. Um rosto angelical, agradável, um convite à compreensão e à amizade. A pureza se escondeu somente quando a fitou. Então ela percebeu que os olhos daquele homem eram cristais ardendo em fogo, olhos que pareciam retirados de um banho em vinagre, inchados e vermelhos. Uma trovoada num dia de sol. Uma gota de limão caindo e manchando seu corpo ardendo na luz.
Ele tinha passado pela roleta, pago o cobrador e sentado, tudo em questão de segundos. Segundos que pareciam um filme de uma hora meia pra ela, que agora era capaz de apontar cada movimento de cada músculo dele, cada pinta, cada sinal, as nuances da íris e a forma como ele olhou para os assentos. Ela já sabia de tudo, ela o sentiu integralmente desde quando ele entrou até quando procurou lugar. Carência é uma forma de afago e ela sabia disso desde cedo. Queria dar aquele homem o prazer de rasgar sua alma – nem que fosse por segundos. Nem que fosse para levá-la depois ao abate.
Sentada na fileira diametralmente oposta, ela o encarou. Quando o estranho retribuiu, ela enrubesceu, sentiu o calor nas bochechas e abriu a janela para sentir o vento. Que direito têm essas pessoas de te atirarem num círculo de curiosidade? É sempre a mesma história: enquanto você gira de olhos arregalados, o acaso ri sarcasticamente pelas costas, o acaso que sempre desdenha daqueles que apostam no livre-arbítrio. A liberdade de escolha, a vontade de conhecer o próprio destino... Ela sabia que todos que não confiam cegamente no acaso acabam gravemente feridos.
Mas a curiosidade, a grande inimiga do ocasional, estava ali, à espreita, na sombra daquele homem que também não disfarçava o interesse em se aproximar dela. Quando o lugar no assento ao lado vagou, ele aproveitou a oportunidade. Pediu licença e sentou-se. Um pedido de licença para invadir sua vida. Um pedido de licença para erguer seu desejo.
Naquele momento, ela não queria mais sentir a brisa fresca que entrava pela janela. Recostou a cabeça, fechou os olhos e tentou sentir a presença dele na escuridão. Sentiu uma mão encostar em seu braço esquerdo e se virou. Era ele que a cutucava, os olhos azuis muito firmes e sérios sondando em 180º todo o ônibus, voando por todos os cantos – mas nunca pousando nela. Ela achou encantador seu acanhamento e enrubesceu novamente por aquele homem. Deu um sorriso leve, de canto de boca, e antes que pudesse romper a barreira, antes que dissesse qualquer coisa, ele foi mais rápido e finalmente a encarou, sem tirar a mão do braço dela. E disse, dentes cerrados, a voz escapando com dificuldade por entre os lábios colados:
- Passa a bolsa ou eu te furo toda.

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