Tuesday, January 31, 2006

Sinais



Vermelho. A menina se aproxima do meio-fio e inicia o longo processo de espera. O vento não passa de um sopro quente, mas com força suficiente pra fazer dançar uma aba da saia. O sol são três toneladas de chumbo derretido caindo sobre sua cabeça. O calor faz nascer uma gota de suor nos ombros, uma gota que corre até o cóccix.
Vermelho. Tudo que era rosto agora é uma massa disforme de músculos retraídos, olhos incomodados, sobrancelhas cerradas, lábios salgados, faces quentes. Ela conta os carros pra fazer o tempo passar, um, dois três, quatro, ou cinco, acho que perdi um, devo contar só os da primeira fileira? O olhar se perde no espaço, não fixa ponto algum. Os olhos ainda estão lá, mas o olhar já se foi. Voou, deve ter buscado um lugar com ar condicionado.
Vermelho. Cansada do trânsito, ela olha para os edifícios. Não há futuro lá em cima, são dezenas de janelas com cabeças muito brancas para fora, velhos fumando, velhos falando sozinhos, velhos olhando o céu. Ela sente repúdio a tudo aquilo, os batimentos se aceleram com a idéia de um dia chegar tão perto da morte. Velhice sempre foi sinônimo de pele frouxa, olhos caídos, furos esgarçados nas orelhas, pêlos se soltando minuto a minuto, varizes gordas no tornozelo, sutiã sem elástico e calçolas bege. Horror, horror, ela volta a cabeça ainda mais pra cima pra tentar ver o último andar, mas o sol sai de trás de uma nuvem e o clarão lhe enruga os olhos.
Vermelho.
Outra dica importante para que a noite com ele seja inesquecível é escolher o perfume adequado. Mas, atenção, fragrâncias muito doces costumam ser desagradáveis para o olfato masculino. Além disso, procure não usar desodorante e perfume de odores diferentes. O homem dos seus sonhos pode ficar confuso quanto à sua verdadeira face. E tudo que você menos quer é parecer uma mulher de múltipla personalidade, não é mesmo?
Vermelho. Tira os olhos da revista da mulher ao lado. Ler mais de um parágrafo costuma cansar, exigir muito do raciocínio, e desde cedo ela aprendeu a respeitar os limites do cérebro. Se bem que a dica número 8, a Tonifique os glúteos nas horas vagas até parece interessante. Não é sempre que a gente pode estar na academia, e acho que essa dica vai ser útil pra mim. Posso até começar agora, nesse maldito sinal que não abre, é só contrair os músculos do traseiro lentamente e ninguém vai perceber nada. E depois de meses, quanta diferença vai fazer, todos meus amigos vão querer saber do truque.
Vermelho. O tempo gira em círculos, ela já sentiu isso antes, a sensação de perder a realidade por um momento e ir jogando pra fora tudo que vive, até não sentir nada dentro de si. Tédio até que era algo interessante pra garota, porque era só quando estava distraída e desocupada que sua alma vislumbrava uma possibilidade de se ocupar de coisas um pouco mais profundas.
Vermelho. A imagem daquele sujeito bem em frente aos seus olhos a faz voltar ao instante. Retorno desesperado, os sentimentos voltando esbaforidos, tentando trazer toda a bagagem a tempo. Seria melhor que não tivessem chegado. Porque agora ela pode sentir os cheiros que saem daquele corpo negro, seria a cor natural ou sujeira?, podia ver os cabelos despenteados formando um bloco único. É muito cheiro de lixo pros meus sentidos, melhor sair correndo, senão daqui a pouco não consigo almoçar.
Vermelho. Os olhos do mendigo estão lá, vermelhos, inchados, grandes e expressivos, têm frases inteiras escritas nas pupilas, frases de sarcasmo e petulância, frases em que acusa a menininha rica pelo seu estado miserável, frases sempre sóbrias, ao contrário do seu corpo. Quanto mais ela entende as mensagens, mais repugnância sente, tenta prender o ar por segundos pra não sentir aquele cheiro, tenta jogar o olhar pra longe de novo, mas dessa vez não dá, dessa vez tudo que ela é se entrega àquela visão, tudo que ela é se une na primeira fileira pra assistir o espetáculo. Coitado dele, deve estar com fome, mas conheço esse joguinho de pobre. Você dá mole, eles jogam na cara que a culpa é tua e que você sempre tem que dar um pouquinho mais.
Verde, finalmente verde. Ela tenta atravessar a rua, mas aquele ser emite um som estranho, uns fonemas mal articulados, e sorri com maldade. Ela não consegue se mover, sabe que corre o risco de ser agarrada pelo braço ou coisa parecida quando tentar cruzar o seu caminho. Ele olha o corpo dela de cima a baixo e se detém nos seios redondos, bem presos e erguidos pelo decote da blusa azul. Ela se incomoda, cobre o colo com a revista. Ele faz cara de contrariado. Ela dá um passo pra trás. Ele, dois pra frente. Ela tem ânsia de vômito. Ele saliva.
Verde. Num ímpeto de coragem, ela desce do meio-fio e atinge a rua. E se eu não conseguir nunca mais sair daqui? As gotas de suor provocadas pelo calor agora se misturam com as provocadas pelo nervosismo. Quanto mais ela limpa as mãos molhadas na calça, mais o sorriso negro do mendigo se ilumina. Eu olho e tudo que vejo é o vazio escuro e sem saída.
Vermelho. Tão acelerados quanto o coração dela, só os carros, que já passam muito rente ao seu desespero. Ela se assusta com as buzinas, ensaia voltar, mas a essa altura o homem já armou uma encruzilhada e a espera na calçada, braços cruzados, olhar ameaçador. Se antes sua expressão era leve, curiosa, portadora de um certo desejo, agora já era de desafio. E ela tinha entendido o recado.
A menina se lança à frente.
Vermelho.

4 Comments:

Anonymous Anonymous said...

nossa, que demais! foi vc quem escreveu isso? gostei pra caralho! vc tá saindo melhor que a enconmenda. hehehehe

1:12 PM  
Anonymous Anonymous said...

Best regards from NY! »

6:12 PM  
Anonymous Anonymous said...

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Anonymous Anonymous said...

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