Onisciência
Corre, corre até a esquina. Ele estará te esperando, punhos cerrados, dentes travados, suor na testa. Você vai olhar pra ele de baixo pra cima, o olhar capturando um plano que começa nos pés e vai subindo até estacionar na linha do pescoço – mas nunca, nunca no rosto. Ele sugará levemente o pingente do seu colar e te olhará de cima a baixo. Você ruborizará, mas estará lá pra isso.
Depois de dar uma geral, ele dirá: eu sabia que você viria. Me disseram que você viria.
Então você desviará o olhar. Encostada no poste, uma carcaça de bicicleta estará ardendo sob o sol. Você notará que o ferro não estará se retorcendo, só esquentando. Não haverá guidão, não haverá roda, não haverá selim, será só uma estrutura seca que queima. Como você, você que eliminará todos os detalhes e arestas e se sentirá só uma célula, uma célula com vontade própria, uma célula que viverá para arder e desejar. Só um núcleo de lava. Só o centro que cresce inundando a periferia.
Você não sentirá amor, respeito ou confiança. Você não sentirá nada do que é recomendado para pessoas como você. Seu sexo não será abençoado pelo Deus que te apresentaram, nem você poderá dizer eu te amo quando os primeiros sinais de magnetismo aparecerem. Mas você o aceitará, porque para você aquilo será tão natural quanto beber água ou transpirar. Você o aceitará e o sugará como um pedaço de terra absorve a água. Sem culpa. Sem intenção.
É com um pouco de temor que, dentro daquele quarto que você conhece tão bem, você começará, beijando e engolindo sua saliva, enquanto ele estiver desatando os nós dos laços de sua blusa. Você lembrará vagamente, como se soprassem na sua memória, que ninguém terá ido tão longe até então. Mas você nem terá tempo de sentir vergonha, porque antes que o medo se derrame sobre você, o desejo arreganhará os dentes perfeitos, o sorriso branco, as gengivas sangrando. Seu corpo, exposto, parecerá mais seu que nunca – cada milímetro de carne reverberando no conjunto, cada pêlo sob seu domínio, cada mancha, pinta e cicatriz fornecendo as mesmas sensações em uníssono.
E você clamará: “Deus, abençoa esta carne que queima. Porque ela é meu começo e meu fim, meu tempo e meu espaço, meu pecado e minha oração” enquanto seus corpos se soldarem, enquanto seus membros se fundirem, enquanto o colar dele balançar ritmadamente em cima de seu peito. Por mais surpreendente que pareça, você nem tentará desviar dos tapas que ele dará em seu rosto – nesse momento, defesa será só um mecanismo marginal de proteção para uma garota que nunca quis tanto ser atacada, ameaçada, desviada de seu caminho natural.
Embora tente conter a explosão, olhando para teto bege em busca de neutralidade e alívio, em pouco tempo seu corpo histérico anunciará uma urgência que você só entenderá segundos depois. Um calor, que terá surgido em seu ventre, percorrerá toda sua pele, até chegar na nuca. Seus sentidos se congelarão em segundos distendidos, enquanto, comprimindo fortemente uma pálpebra contra a outra, o espaço e o tempo se dissolverão no breu.
“Ó, Deus, mas eu não me sinto como se estivesse me afastando da pureza. Ainda reconheço seus olhos invisíveis, ainda sei olhar em seu rosto e entender sua linguagem. Não me condene, porque eu agora me sinto abençoada, plena. Condenada, jamais. Eu consegui enxergar a luz que sai dos bueiros e dos esgotos, eu consegui ver o Senhor no lado escuro de mim, consegui ver o Senhor onde meu sangue é sujo e espesso, onde os pecados coagulam e bloqueiam o fluxo. Eu consegui."
E depois disso, nada te faltará.
